Tem cachorros que parecem ter saído de um livro de mitologia, e o Chow Chow é um deles. Com a juba densa em volta do pescoço, o andar meio empinado e aquele olhar sério que lembra um pequeno leão, ele chama atenção antes mesmo de abrir a boca. E, quando abre, revela o detalhe que mais desperta curiosidade em quem vê pela primeira vez: uma língua azul-arroxeada, quase preta em alguns cães.
Essa combinação de aparência majestosa, temperamento independente e uma característica física rara faz dele uma das raças mais fascinantes do mundo canino, e também uma das mais mal compreendidas. Neste guia, você vai entender a origem milenar da raça, o motivo real por trás da língua azul, o temperamento verdadeiro por trás da fama de “cachorro bravo” e os cuidados que fazem toda a diferença para quem decide ter um Chow Chow em casa.
Resposta rápida: O Chow Chow é uma das raças caninas mais antigas do mundo, originária da China, conhecida pela língua azul-arroxeada causada por uma alta concentração de melanócitos na mucosa da boca. É um cão independente, leal e reservado com estranhos, que exige cuidados redobrados com a pelagem dupla e com o calor.
O que você vai descobrir sobre o Chow Chow:
• A origem milenar da raça e o motivo real por trás do nome “Chow Chow”.
• Por que a língua do Chow Chow é azul-arroxeada, segundo a ciência.
• Os cuidados essenciais com pelagem, calor e saúde para quem quer ter um em casa.
Um guia para quem se apaixonou pela aparência e quer entender o cão de verdade por trás dela.
Origem do Chow Chow: uma das Raças Mais Antigas do Mundo

O Chow Chow é considerado uma das raças de cães mais antigas já registradas, com origem na China. Um estudo genômico publicado na revista científica BMC Genomics em 2017 sequenciou o DNA de exemplares da raça e os comparou a lobos e outras raças asiáticas. A conclusão foi que a linhagem descende de cães indígenas chineses que já existiam há até 8.300 anos, formando um dos ramos genéticos mais antigos e isolados entre os cães domésticos atuais.
Na China antiga, o papel dele ia muito além de estimação decorativa: ele trabalhava. Caçava, guardava propriedades e templos, e puxava pequenas cargas em regiões mais frias, graças à pelagem espessa e à estrutura corporal robusta. Essa origem utilitária explica boa parte do temperamento que a raça carrega até hoje: um cão feito para tomar decisões sozinho, não para esperar comando o tempo todo.
O nome “Chow Chow” tem uma origem curiosa e nada relacionada à China: acredita-se que seja uma expressão do inglês comercial usada por navegadores britânicos entre o fim do século XVIII e o início do XIX para se referir a cargas variadas (“isso e aquilo”) vindas do Oriente.
Quando a raça chegou à Inglaterra nesse período e ganhou popularidade (inclusive como animal de estimação da rainha Vitória), o apelido pegou e virou nome oficial. Hoje, a raça é reconhecida pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), filiada à Federação Cinológica Internacional, dentro do Grupo 5 (Spitz e cães do tipo primitivo).
Temperamento do Chow Chow: Personalidade de Gato em Corpo de Leão

Quem espera um cão saltitante e efusivo se surpreende com o Chow Chow. A raça é conhecida por um temperamento digno, independente e reservado, muito mais parecido com o de um gato do que com o de um labrador, por exemplo. Ele não vive pedindo colo nem corre pra cumprimentar todo mundo que entra em casa: observa primeiro, decide depois.
Essa independência não significa falta de afeto. Pelo contrário: ele costuma desenvolver um vínculo profundo e seletivo, geralmente com uma pessoa específica da família, a quem segue pela casa em silêncio. Com estranhos, o padrão dele é cautela, algo bem diferente de hostilidade real. E ele raramente se entrega no primeiro afago, mesmo com quem já conhece. A fama de “cachorro bravo” nasce justamente dessa reserva mal interpretada por quem não conhece a raça.
A socialização precoce, ainda filhote, é o fator que mais determina como ele vai se comportar na vida adulta. Cães expostos a pessoas, outros animais e situações diferentes desde cedo tendem a ser mais equilibrados; os que crescem isolados podem se tornar territorialistas e desconfiados demais. Gritos e punições simplesmente não funcionam com essa raça. Ele responde muito melhor a reforço positivo, consistência e paciência.
Um cão independente pede um jeito diferente de amar, baseado em respeitar o ritmo dele. Forçar proximidade nunca funciona tão bem quanto deixar a confiança se construir aos poucos.
Por Que a Língua do Chow Chow é Azul?

Esta é, sem dúvida, a pergunta que mais leva gente até este artigo, e a resposta começa antes mesmo de o filhote nascer com essa característica. Os filhotes de Chow Chow nascem com a língua rosada, igual à maioria dos cães. A pigmentação azul-arroxeada começa a aparecer entre 8 e 10 semanas de vida e pode continuar se intensificando até os 6 meses, quando geralmente já está no tom definitivo, que pode variar de azul-acinzentado a um roxo quase preto, dependendo do cão.
A causa é puramente genética, sem qualquer ligação com doença ou problema de saúde: a mucosa da boca do Chow Chow tem uma concentração muito mais alta de melanócitos, as células responsáveis por produzir melanina, do que a maioria das raças. Em vez de ficar restrita à pele e aos pelos, como acontece na maior parte dos cães, essa pigmentação se espalha também pela língua, pelo céu da boca e pelas gengivas.
O estudo genômico de 2017 citado anteriormente foi além da origem da raça e também investigou essa característica: os pesquisadores identificaram sinais de seleção genética nos genes ASIP e PDPK1, ambos associados a processos de pigmentação em outras espécies, como possíveis candidatos por trás da língua azul da raça, embora a ciência ainda não tenha fechado por completo o mecanismo exato.
Fora do Chow Chow, o Shar Pei é a única outra raça cujo padrão oficial também exige essa língua azul-arroxeada. A pigmentação aparece ainda, com menor exigência de padrão, em raças como o Eurasier (que descende do próprio Chow Chow) e o Thai Ridgeback, e pintas escuras isoladas na língua são comuns e normais em cães de várias outras raças.
Existe até uma lenda chinesa bonita sobre o tema: contam que, na criação do céu, um pouco da tinta azul usada para pintá-lo pingou na terra, e os cães que a lamberam ganharam a língua colorida como marca sagrada. É folclore, claro, mas ajuda a entender por que essa característica sempre foi vista como algo especial, e não como uma anomalia.
Pelagem Dupla: os Cuidados que a Juba do Chow Chow Exige

A “juba” que dá a ele essa aparência de leão em miniatura é, na prática, uma pelagem dupla: um subpelo denso e macio por baixo, que funciona como isolante térmico, e uma camada externa mais áspera e reta por cima, que protege contra sujeira e umidade. A raça existe em duas variações reconhecidas, pelo longo (rough) e pelo curto (smooth), sendo a versão de pelo longo a mais popular e a que forma a juba mais volumosa ao redor do pescoço.
Manter essa pelagem saudável exige rotina: escovação pelo menos 2 a 3 vezes por semana, sempre com escova própria para pelo duplo, que alcança o subpelo sem puxar ou machucar a pele. Em duas épocas do ano, ele passa pela troca completa de subpelo (a chamada “muda de pelagem”), e nesses períodos a escovação precisa virar rotina diária: sem isso, o pelo emboloa rápido, principalmente atrás das orelhas e nas patas traseiras.
Um erro comum, e que vale o alerta: nunca tosar o Chow Chow rente à pele achando que isso vai ajudar no calor. A pelagem dupla também funciona como proteção térmica: ela isola o cão tanto do frio quanto do calor excessivo, além de proteger contra queimadura solar na pele. Tosar rente pode danificar o folículo capilar de forma permanente. O pelo cresce de volta de forma irregular dali pra frente, e a pele fica exposta bem no momento em que menos deveria.
Chow Chow e o Calor: Cuidados Especiais no Clima Brasileiro

Se a pelagem dupla é ótima para climas frios, ela vira um desafio real em boa parte do Brasil. Essa raça é classificada como braquicefálica, ainda que num grau bem mais brando que o de um buldogue ou um pug, o que já reduz um pouco a eficiência da ofegação, o principal mecanismo que os cães usam para perder calor. Somando isso à camada dupla de pelo, essa é uma raça que precisa de atenção redobrada em dias quentes.
Na prática, isso significa evitar passeios e exercícios nos horários de sol mais forte (entre 10h e 16h, como regra geral), garantir água fresca disponível o dia inteiro e priorizar ambientes ventilados ou com ar-condicionado em dias muito quentes. Piscininhas rasas e tapetes refrescantes também ajudam bastante, principalmente em regiões com verão intenso.
Ficar atento aos sinais de superaquecimento é essencial: ofegação muito intensa e prolongada, gengivas muito vermelhas (ou, em casos mais graves, pálidas), fraqueza e desorientação pedem atenção imediata. Nesses casos, resfriar o cão aos poucos e procurar atendimento veterinário sem demora é a atitude certa. Um cachorro ofegante demais nem sempre é só cansaço, e vale a pena entender melhor os sinais de alerta de um cachorro ofegante antes que a situação se agrave.
Saúde do Chow Chow: Problemas Mais Comuns da Raça

Como toda raça com características físicas bem marcantes, ele tem algumas predisposições genéticas que valem a atenção do tutor, sempre com o objetivo de permitir prevenção e diagnóstico precoce. A displasia de quadril e de cotovelo está entre as mais comuns, principalmente em cães com sobrepeso ou que fizeram esforço físico intenso ainda filhotes, antes da estrutura óssea estar totalmente formada.
Outra condição bastante associada à raça é o entrópio, uma alteração em que a pálpebra se curva para dentro do olho. O excesso de pele ao redor dos olhos, que também contribui para a expressão facial característica da raça, aumenta a chance dessa condição aparecer. Quando não tratada, o atrito constante do pelo contra a córnea pode causar irritação crônica e até lesões mais sérias. Em casos assim, a correção costuma ser cirúrgica, e o prognóstico é bom quando identificado cedo.
O Chow Chow também está entre as raças com maior predisposição a glaucoma primário, uma condição que aumenta a pressão dentro do olho e pode levar à perda de visão em pouco tempo quando não tratada a tempo. Estudos veterinários apontam prevalência em torno de 4,7% entre cães da raça, bem acima da média geral. Sinais como dor ocular, vermelhidão, opacidade na córnea e dilatação da pupila pedem avaliação veterinária imediata, e exames oftalmológicos preventivos regulares são recomendados para quem tem um Chow Chow em casa.
A raça também pode apresentar luxação de patela (o deslocamento da rótula) e, com menor frequência, problemas respiratórios leves ligados ao focinho mais curto. A boa notícia é que nenhuma dessas condições é exclusiva do Chow Chow nem inevitável: check-ups veterinários regulares, controle de peso desde filhote e cuidado ortopédico nos primeiros meses de vida reduzem bastante o risco. Com esses cuidados, a expectativa de vida da raça fica entre 8 e 12 anos, dentro da média esperada para cães de porte médio a grande.
Chow Chow Combina com Que Tipo de Tutor?

Antes de se encantar só pela aparência, vale se perguntar se o estilo de vida combina com o que a raça realmente pede. Ele tende a se dar melhor com tutores que já têm alguma experiência com cães de temperamento independente, ou que estejam dispostos a investir tempo real em socialização desde os primeiros meses. Não é a raça mais indicada para quem busca o primeiro cão da vida sem apoio de um adestrador.
Com crianças, a convivência costuma ser tranquila quando o cão foi bem socializado, mas pede supervisão: ele não tolera bem invasão de espaço repentina, então crianças pequenas precisam aprender a respeitar os limites dele tanto quanto ele aprende a conviver com elas. Com outros animais da casa, apresentações graduais e feitas ainda filhote tendem a funcionar bem; cães adultos, principalmente do mesmo sexo, podem levar mais tempo para aceitar a convivência.
Vale lembrar também que o Chow Chow não é um cão “grudento”. Quem sonha com um companheiro que siga atrás o dia inteiro pedindo atenção pode se frustrar com a reserva natural da raça. Mas quem valoriza um cão leal, discreto e presente à sua maneira, sem depender de estímulo constante, costuma achar no Chow Chow um parceiro à altura.
Ficha Técnica do Chow Chow
| Característica | Detalhe |
|---|---|
| Porte | Médio a grande |
| Peso | 20 a 32 kg |
| Altura (na cernelha) | 48 a 56 cm (machos) e 46 a 51 cm (fêmeas), segundo o padrão FCI |
| Pelagem | Dupla, nas variações longa (rough) e curta (smooth) |
| Expectativa de vida | 8 a 12 anos |
| Temperamento | Independente, leal, reservado com estranhos |
| Grupo FCI | Grupo 5 (Spitz e cães do tipo primitivo) |
✅ É uma das raças mais antigas do mundo, com origem na China há milhares de anos.
✅ A língua azul-arroxeada é genética, não é doença, e vem de uma alta concentração de melanócitos na mucosa oral.
✅ O temperamento é independente e reservado, mais parecido com o de um gato do que com o da maioria dos cães.
✅ A pelagem dupla exige escovação regular e nunca deve ser tosada rente à pele.
✅ É uma raça sensível ao calor, que pede cuidados redobrados no clima brasileiro.
✅ Displasia de quadril, entrópio, luxação de patela e glaucoma primário são as condições de saúde mais associadas à raça.
Perguntas Frequentes sobre Chow Chow
Por que a língua do Chow Chow é azul?
A pigmentação azul-arroxeada é genética: a mucosa da boca dele concentra muito mais melanócitos (células produtoras de melanina) do que a maioria dos cães. Os filhotes nascem com a língua rosada e a cor azul se desenvolve entre 8 e 10 semanas de idade. É uma característica normal e sem risco à saúde. Entre as raças caninas, o Shar Pei é a única outra cujo padrão oficial também exige essa língua azul-arroxeada.
Chow Chow é uma raça agressiva?
Não por natureza. Ele é reservado e desconfiado com estranhos, o que costuma ser confundido com agressividade, mas seu temperamento real é de independência e cautela. Socialização precoce e treinamento com reforço positivo são o que determinam se ele vai crescer equilibrado ou territorial demais.
Quanto tempo vive um Chow Chow?
A expectativa de vida dele fica entre 8 e 12 anos, dentro da média para cães de porte médio a grande. Alimentação equilibrada, controle de peso e acompanhamento veterinário regular ajudam o cão a viver dentro dessa faixa com boa qualidade de vida.
Chow Chow perde muito pelo?
Sim, bastante. A raça tem pelagem dupla e passa por duas trocas completas de subpelo por ano. Fora dessas épocas, a queda é moderada e controlável com escovação de 2 a 3 vezes por semana; durante a muda, a escovação precisa ser diária para evitar que o pelo emboloe.
Chow Chow é bom para apartamento?
Pode ser, já que não é uma raça hiperativa e tem energia moderada. Mas o calor pesa mais nessa decisão do que o espaço em si: apartamentos sem boa ventilação ou muito quentes exigem cuidado redobrado com a pelagem densa da raça, principalmente em dias de verão.
Chow Chow combina com crianças?
Pode combinar bem quando socializado desde filhote, mas exige supervisão: a raça não tolera bem invasão de espaço repentina, então crianças pequenas precisam aprender a respeitar o ritmo do cão. O que está por trás disso é o temperamento reservado característico da raça, muito mais do que qualquer tendência a agressividade.
Um Cão que Pede Paciência e Devolve Lealdade de Verdade
O Chow Chow não é a raça mais fácil de resumir em poucas palavras, e talvez seja justamente por isso que ele fascina tanto. Por trás da aparência de leão e da língua azul que vira assunto em qualquer conversa, existe um cão de personalidade forte, leal à sua maneira e com uma história que atravessa milhares de anos antes de chegar à sala de qualquer casa brasileira.
Ter um Chow Chow em casa é um exercício de paciência e respeito pelo tempo do outro, inclusive quando esse outro tem quatro patas. Para quem topa esse acordo, a recompensa é um companheiro discreto, presente e genuinamente único. Se você está pensando em conhecer outras raças antes de decidir qual combina com sua rotina, vale conferir o guia completo de raças de cachorro, o perfil do Golden Retriever ou o perfil do Blue Heeler aqui no Patinhas & Cuidados.

Sou apaixonado por cães desde a infância, quando convivi intensamente com meu primeiro companheiro, o caramelo Baixinho. Ao longo dos anos, tive outros companheiros caninos, e hoje divido a rotina com Zoe e Meg. Fiz o curso de Auxiliar Veterinário e fui voluntário na ONG Patinhas Carentes, onde vivi de perto o resgate e o cuidado de animais em situação de abandono. No Patinhas & Cuidados, transformo essa vivência prática em conteúdos claros e responsáveis para ajudar tutores a entender melhor seus cães — sempre deixando claro que não substituo a orientação de um médico-veterinário.







